06 janeiro 2018

"Em defesa do verdadeiro Pão de Santana"

10:11

Artigo de Opinião, por Gil Rosa.

Quem não gosta de um bom pão de Santana. Sim. O pão originário desta freguesia do norte da Madeira. Não o que indevidamente recebe o seu nome e é visível em muitas padarias sobretudo no Funchal e em algumas grandes superfícies.

Diria que a maior parte das pessoas apreciam este pão tradicional o pão da minha infância, o pão que me fez crescer.

Gosto muito do pão caseiro, principalmente daquele que me remete à infância, à brincadeira, à família. Naquele tempo o pão que a minha mãe fazia, era feito apenas com farinha, água, batata-doce, sal e fermento… e naturalmente muito talento da “padeira”.

Era com esta simplicidade de ingredientes que se fazia o pão com miolo e uma crosta estaladiça. O melhor. Sempre, bem cozido.

Lembro-me da forma como amassávamos.

Posso dizer que não é tarefa fácil. Requer método, paciência, talento e alguma força de braços para envolver a massa.

Lá em casa todos colocávamos a mão na massa.

Envolver a farinha era uma operação que leva cerca de meia hora. Quando a massa estava boa, cortávamos com uma faca para ver se tinha muitos ‘favos’.

Depois com alguma superstição à mistura era feita uma cruz na massa acompanhada de uma reza.

Próximo passo era deixar a massa levedar.

A par disto era preciso tratar outras tarefas : controlar a temperatura do forno, preparar a mesa para tender o pão, colocar uma toalha, polvilhar farinha e com muita habilidade formar quadrados por forma a colocar as bolas de massa depois de levedar.

A massa voltava a ficar mais algum tempo até a temperatura do forno baixar na medida certa…depois varríamos as brasas com a ajuda de um “varredouro” (feito de trapos amarrados a um cabo de madeira com vergas).

O tempo de espera era aproveitado para outras tarefas caseiras, ou para contar histórias vividas por familiares, por amigos, vizinhos…conversas que prendiam a nossa atenção.

A minha mãe é que tendia e depois o meu pai metia o pão no forno. Um momento quase “sagrado” só meu o pai é que o podia fazer…Nenhum de nós podia permanecer na cozinha, porque era necessário espaço de manobra para fazer rodar a pá.

Depois do pão cozido, que bem sabia uma fatia com banha de porco ou manteiga quando havia e café acabado de coar, uma mistura de cheiros que nunca se esquece.

Hoje em dia faço pão em casa, evidentemente que não é como o da minha mãe. Mas ainda assim muito próximo do verdadeiro pão de Santana, coisa que não vejo em muito do que por aí aparece usando indevidamente o nome desta terra do norte.

E aqui em defesa de um produto único e emblemático de Santana, seria bom que se o preservasse e que pelo menos que não se permita a utilização do seu nome para qualquer coisa que pode ser tudo menos pão com sabor a caseiro feito no norte da Madeira.

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