Mostrar mensagens com a etiqueta opinião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta opinião. Mostrar todas as mensagens

26 maio 2021

Opinião por Gil Rosa: Ir ao moinho


Noutros tempos, as farinhas de milho ou de trigo, não eram adquiridas num supermercado ou numa “venda”.

O grão vinha da terra e depois de todo o processo de laboração, desde a plantação até à secagem ao sol, ia bater moinho mais próximo que existia na zona. Por norma moinhos movidos a água.

Não raras as vezes recebia essa incumbência para levar o grão até o moinho para o transformar em farinha. Era com essa farinha que minha mãe fazia o milho cozido ou amassava o pão.

Ela preparava um saco de pano e era lá dentro que metia uma certa quantidade de grão.

Depois caminho acima lá ia eu em direção ao moinho.

Muitas vezes quando lá chegava tinha de esperar um bom bocado. Havia sempre muito movimento. Mesmo existindo vários moinhos na freguesia, também havia muita gente que procurava estes espaços.

Era sempre uma experiência gratificante. Adorava ver o moinho funcionar. Ficava de certa forma espantado com aquela tecnologia.

Recordo-me de todo o processo.

Quando chegava à minha vez, a senhora que trabalhava no moinho, metia o grão dentro duma caixa de madeira em forma de “V”. Tinha uma espécie de tranca que servia para controlar a saída do grão em direção às pedras que o iam transformar em farinha.

Toda esta operação produzia um cheiro característico e por sinal até bem agradável.

A farinha depois de passar nas pedras caía para uma outra caixa e era aí que se ia amontoando até ao ponto de retirada para outra operação.

Depois de moída a farinha passava para outra máquina que a peneirava. Aí procedia-se à separação do rolão, que era uma espécie de farinha integral, mas que na altura era considerado um subproduto, usado para coisa menores.

Depois de tudo concluído o saco que serviu para trazer o grão, voltava a ser usado para levar a farinha de regresso a casa. O pagamento ao dono do moinho era por norma em género… ou seja o moleiro ficava com uma parte do grão como contrapartida pelo seu trabalho.

Todo este processo desde a entrada do grão no moinho até à saída em farinha e rolão, era acompanhado pelos clientes da zona. O moinho era por assim dizer também um espaço de convívio social. Muita da conversa era posta em dia ali. Com a roupa e o cabelo branco cheio de farinha o moleiro ou a moleira eram eles que controlavam todas as operações e até as conversas.

No meio de tudo isto havia um elemento fundamental para que o moinho pudesse funcionar: a água.

No verão às vezes devido à falta dela, o moinho inevitavelmente tinha de parar. Também me aconteceu chegar ao moinho e este não estar a funcionar. Quando a água “andava de giro”, esse problema colocava-se. É que esse “combustível” corria na levada, passava pelo moinho e seguia o seu percurso em direção aos terrenos onde era utilizada para a agricultura. Mas se estivesse a ser usada noutra zona, podia não passar pelas rodas que faziam mover as pedras do moinho.
Por vezes esse tempo de paragem na moagem era usado pelo moleiro para “picar a pedra”. Era uma operação que tinha de ser feita de vez em quanto para que a moagem estivesse sempre afinada.

“Picar a pedra” implicava que a mesma tinha de ser retirada da zona e deslocada normalmente para a rua para poder ser tratada. Era uma operação ainda algo complicada, tendo em conta o peso destas pedras. Eram grandes rodas. Implicava quase que desmanchar toda a estrutura onde as duas pedras - a de cima e de baixo- funcionavam.

Também não era um trabalho para qualquer um. Recordo-me de ver o moleiro pacientemente com um instrumento metálico a fazer pequenos cortes na pedra. Era um trabalho de muita perícia.

Na minha infância eram vários os moinhos que existiam em Santana. Com o andar dos tempos muitos foram encerrando. Hoje em funcionamento são muito poucos. Mesmo fechados alguns ainda preservam no seu interior toda a maquinaria. Um património que talvez fosse de criar condições para que não desaparecesse e que no mínimo estivesse disponível para ser contemplado pelas novas gerações e por quem nos visita.

Fonte: JM-Madeira

01 outubro 2020

Opinião por Gil Rosa: Vindimas de outros tempos



Santana não é propriamente uma terra conhecida pela produção de vinho. Como se sabe é mais virada para outras culturas.

Ainda assim noutros tempos existiram grandes quantidades de uvas. Uvas que como noutras paragens eram dos chamados agora produtores diretos e eram quase que exclusivamente para consumo no próprio concelho.

A vinha que existia era maioritariamente cultivada no chão, sem recorrer aos chamados corredores. Os corredores eram mais comuns em freguesias como: São Jorge e Arco, ou mesmo no Faial.

Nos terrenos dos meus pais era tudo assim: vinha no Chão.

Recordo-me na altura de ouvir falar nas castas existentes e que eram pronunciadas popularmente assim: “armum”, “americano”, “tinto”, “jaquè”, “canin” entre outras.

O tratamento das vinhas como é natural era feito ao longo do ano. Depois da vindima vinha a poda, depois a fase de levantar e estacar as parreiras para que as uvas não ficassem directamente em cima da terra. Pelo meio havia sempre que cavar, mondar e regar e sulfatar.

Depois vinham as vindimas. Era um dia quase de festa.

Na minha casa vinham várias pessoas, homens e mulheres que procediam à apanha da uva e ao seu transporte para o lagar.

Ainda criança lembro-me deste ser um dia alegre, com tanta gente à volta das vinhas. A operação era por vezes acompanhada por cantarias diversas.

As mulheres apanhavam as uvas que iam colocando em cestos de vindima. Os cestos eram feitos de vime e mesmo vazios já representavam algum peso. Agora imagine-se carregados de uva até ao “cagulo” - como se dizia.

Na altura não havia caixas ou sacos como há hoje.

Os cestos bem cheios eram transportados pelos homens para o lagar. Era uma operação dura sobretudo por que implicava por vezes uma deslocação longa por trilhos muito sinuosos. Não era para qualquer um.

Pelo meio nós, eu e os meus irmãos, ainda crianças também ajudávamos à apanha e fazíamos o “abastecimento” ao pessoal. Um abastecimento que consistia na distribuição de um copo de vinho.

Depois da apanha operação seguia para dentro do lagar. Era lá que os homens começavam o trabalho para a pisa e repisa. Por vezes as uvas ficam de um dia para outro ou até mais, ao que se dizia para que o vinho ganhasse cor.

O trabalho de espremer as uvas nem sempre era fácil. Sobretudo quando se tratava da uva americano, por vezes era necessário juntar palha ao bagaço para que ele não se desfizesse quando era espremido com o peso da vara.

Nem toda a gente tinha lagar. Pelo que alguns lagares eram quase que comunitários. Eram emprestados aos vizinhos para que estes pudessem fazer o seu vinho.

Recordo-me do transporte do mosto que depois era feito através dos borracheiros. Cada borracho levava em médica um barril de vinho, cerca de 50 litros.

A freguesia de Santana não era uma grande produtora de vinho, mas as freguesias vizinhas sobretudo de São Jorge e do Arco de São Jorge, já eram muito conhecidas sobretudo pela produção de vinho “jaqué”. Um vinho que era muito procurado na costa sul. Lembro-me ainda de assistirmos às frequentes passagens por Santana de camiões carregados de vinho transportado em pipas, vindos das freguesias do Arco de São Jorge e de São Jorge.

Foi uma forma de economia que acabou por ser engolida pelo tempo.


Fonte: JM-Madeira


26 setembro 2020

Opinião por Manuel Filipe: A Riqueza gastronómica de São Pedro


Artigo de Opinião por Manuel Filipe.

São Pedro é a freguesia da Madeira que encerra dentro dos seus limites geográficos maior numero de museus e maior património cultural.

É uma constatação que não tem servido para atribuir identidade à freguesia que certamente ganharia muito com essa identidade.

Contudo associado a este rico património cultural, onde se destaca o convento de Santa Clara, surgiu uma riqueza gastronómica que certamente muitos desconhecem. Esse trabalho de pesquisa e divulgação foi realizado pela Associação Cultural Memórias Gastronómicas a qual destaco o trabalho e a paixão sobre o tema do Dr. João Dionisio e do Mestre Abreu de Sousa, que encontra-se registado num livro. A doçaria conventual usa e abusa dos ovos, e não fugiu à regra a doçaria criada no Convento de Santa Clara a partir do seculo XV. São os Torrões de Santa Clara, as Barrigas de Freira, as Encharcadas, os Papos de Anjo e as Cericaias.

Tradição em pastelarias também não falta em São Pedro, embora muitas das primeiras pastelarias do Funchal que se localizavam na freguesia encontram-se fechados como a Felisberta e a Lua.


O trabalho de pesquisa e de divulgação está realizado pela Associação Cultural Memórias Gastronómicas, agora falta os comerciantes, com a ajuda das entidades gestoras do território, criarem uma mais valia nas suas pastelarias.

Tradição em pastelarias também não falta em São Pedro, embora muitas das primeiras pastelarias do Funchal que se localizavam na freguesia encontram-se fechados como a Felisberta e a Lua. Continuamos à espera que a Camara Municipal do Funchal apresente o projeto de recuperação e que inicie as respetivas obras na Pastelaria Felisberta, que deixou saudades à freguesia e à cidade. Esperemos que este espaço agora propriedade camarária possa contribuir para a divulgação da nossa cultura gastronómica e possa vender as velhas receitas conventuais de Santa Clara.

Fonte: DN-Madeira

07 agosto 2020

Património cultural, valores partilhados

“Património Cultural – Realidade Viva” constitui uma reflexão sobre um tema candente no tempo atual.


“Património Cultural – Realidade Viva” constitui uma reflexão sobre um tema candente no tempo atual. A perigosa fragmentação europeia, a que assistimos, resulta da incompreensão em relação à memória, à história política e à sociedade. O medo do outro e do diferente, a ilusão económica, o egoísmo, a prevalência do curto prazo, a desatenção relativamente às potencialidades da sociedade e da cidadania encontram raízes fundas na desvalorização do património e da memória. Não podemos esquecer o paradoxo induzido pela tentação de encarar as identidades culturais como realidades autossuficientes e fechadas, em contraponto ao “vazio de valores” e ao relativismo.

Os nacionalismos hoje emergentes na Europa central devem-se a problemas de reconhecimento e de legitimidade, sob a influência da instabilidade e da fragmentação políticas – daí a necessidade de encontrar denominadores comuns que reconheçam as diferenças e as complementaridades. Em lugar do fechamento e do medo do outro e do diferente, importa que o local, o nacional e o supranacional se articulem sem se excluir – permitindo, pela subsidiariedade, que as identidades favoreçam a convergência para uma memória enriquecida pelo que é próprio e pelo que é comum.

Não falamos de coisas do passado, irremediavelmente perdidas num canto recôndito da nossa memória. Referimo-nos à memória viva, seja ela referida a monumentos, sítios e tradições, seja constituída por acervos de museus, bibliotecas e arquivos. Mas fundamentalmente tratamos de conhecimentos ou de expressões da criatividade humana… Ter memória é, assim, respeitarmo-nos. Cuidar do que recebemos é dar atenção, é não deixar ao abandono. Por isso, o património cultural que devemos proteger é sinal para que o que tem valor hoje e sempre não seja deixado ao desbarato. Como poderemos preservar o que é novo se não cuidarmos do que é de sempre?

A Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural na sociedade contemporânea, assinada em Faro a 27 de outubro de 2005 e entrada em vigor a 1 de junho de 2011, que coordenámos, teve como preocupação fundamental pensar na noção de património cultural comum e de construir um conceito de responsabilidade partilhada – envolvendo o património construído e material, o património imaterial, natureza, paisagem, mundo digital e criação contemporânea. As políticas públicas de cultura devem, assim, começar pelo cuidado da herança e da memória. De facto, o património cultural refere-se à permanência de valores comuns, à salvaguarda das diferenças e ao respeito do que é próprio, do que se refere aos outros e do que constitui herança comum.

Em 2018, quando a União Europeia consagrou ao Património Cultural um Ano, tal decisão constituiu um marco emblemático para um projeto europeu de paz, de hospitalidade, de entreajuda, de desenvolvimento sustentável e de defesa da diversidade cultural. Estão em causa a cidadania livre e responsável; a soberania partilhada; a união de Estados livres e soberanos; a democracia supranacional; a subsidiariedade; e o desenvolvimento orientado para a dignidade humana. Eis por que este Ano Europeu pode e deve constituir-se num desafio às Universidades, às escolas, aos investigadores, às instituições, à sociedade civil e a todos os cidadãos europeus para que o património cultural seja considerado como fator de mobilização em torno da defesa do que é próprio e do que é comum.

A memória das guerras e em especial da Segunda Guerra Mundial ou a destruição de Palmira obriga-nos a pensar que uma cultura de paz europeia só poderá ser duradoura se à dimensão económica e monetária soubermos aliar a expressão cultural e política, com a qual poderemos tecer a coesão, a justiça distributiva, a equidade intergeracional e o primado da aprendizagem. Longe das boas intenções que enchem o inferno, precisamos de cuidado e atenção para o que somos, de onde vimos e para onde vamos.

A Cultura assume uma importância decisiva, já que a sustentabilidade não pode resumir-se nem à mera gestão dos recursos materiais, nem aos temas ambientais. Importa considerar o valor da memória, da aprendizagem e da capacidade criadora. Ao falar de Cultura, ainda estamos a ligar a fidelidade à memória, o respeito pela herança recebida das gerações passadas à Educação e à Ciência. O debate europeu atravessa um momento especialmente difícil e incerto. Como ligar a política e a economia, assegurando um papel ativo da União Europeia no equilíbrio e regulação da cena internacional? Como garantir o desenvolvimento sustentável, baseado no conhecimento, na aprendizagem, na inovação, na coesão e na qualidade de vida?

Não se tratou apenas de um gesto de boas intenções – mas estava em causa a demonstração da importância das raízes históricas e culturais; da necessidade de proteger e salvaguardar o património comum; da importância transversal e estratégica das políticas públicas ligadas à Educação, à Formação e à Ciência, bem como do entendimento de que só a proteção do património cultural, no contexto de uma identidade aberta e plural, e a sua ligação à qualidade da criação contemporânea podem corresponder a uma visão integrada do desenvolvimento, capaz de preservar uma cultura de paz.

Sabemos que não é verdade que Jean Monnet tenha dito alguma vez que se tivesse de recomeçar a construção europeia teria escolhido a cultura. De facto, uma lógica de solidariedade funcional exige a diversidade cultural – que, na fórmula de Jacques Delors, se deve associar às causas da paz e da segurança e do desenvolvimento sustentável. Os pais fundadores da Europa moderna consideraram a cultura como denominador comum de valores, como fonte da liberdade, da igualdade e da solidariedade e como pressuposto do respeito mútuo e da dignidade humana.

A política, a economia e a cultura articulam-se, assim, na defesa do bem comum – ou seja, na procura de interesses vitais comuns que contribuam para a paz e o desenvolvimento. Daí que a sustentabilidade deva ser considerada através do cuidado com a história e com a equidade entre gerações – preservando o património cultural e protegendo a natureza do irreversível esgotamento dos recursos…

Os desafios que o património cultural enfrenta e que têm impacto na sociedade contemporânea envolvem desde a transição para a era digital até à questão ambiental e demográfica, sem esquecer a prevenção e o combate do tráfico ilícito de bens culturais. Fundamentalmente, tratamos de conhecimentos, de cultura e de humanidade… Ter memória é respeitarmo-nos, é estudar a História e conhecer as raízes. Cuidar do que recebemos é dar atenção, é não deixar ao abandono, é conhecer, estudar, investigar, proteger e conservar. Mas trata-se ainda de promover a diversidade cultural, o diálogo entre culturas e a coesão social, de realçar o contributo económico do património cultural para os setores criativos e para o desenvolvimento.

Internacionalmente, tem-se discutido o conceito de Museu. O debate prossegue, verificando-se uma tensão entre a visão puramente instrumental dos museus que os assimila a instituições de natureza social ou participativa e a outra perspetiva, que procura preservar o que distingue os museus na sua diversidade e complexidade, tornando-os únicos. Do que se trata é de haver necessidade de evitar simplificações ou anacronismos. O património como realidade viva tem de ser visto à luz do tempo atual, compreendendo a relação entre memória e vida. A historiografia não visa um julgamento moral do que ocorreu no passado. Importa, sim, conhecer o tempo que nos precedeu, usar a memória como fator de compreensão da humanidade, de modo que a capacidade criadora das pessoas seja um fator de emancipação.

Eis por que importa compreender que o sentido crítico tem de estar presente, não para encontrar bodes expiatórios para os erros da humanidade, mas para entendermos o carácter imperfeito do género humano e a sua necessária perfectibilidade.

O que deve estar em causa é a procura de caminhos explicativos, de linhas de reflexão, de sínteses e de paradoxos, em resposta ao enigma persistente e contraditório de uma sociedade que oscila entre o messianismo e a vontade, entre o mito e a racionalidade, entre a crítica e a sobrevivência, entre o presente e o futuro. E no domínio do património cultural, importa refletir sobre os bens culturais ilegitimamente apropriados e sobre as consequências de situações pretéritas de domínio de uns povos sobre outros.

É do tempo presente que falamos e da memória nos dias de hoje, enquanto projeção do passado e responsabilidade – devendo haver um cuidado especial na regulação justa da posse dos bens ilegitimamente apropriados, no desenvolvimento de um verdadeiro conceito de património comum (como defende a Convenção de Faro do Conselho da Europa, na sequência dos principais instrumentos internacionais neste domínio) e na defesa e salvaguarda efetiva do património da humanidade, numa autêntica partilha de responsabilidades e segundo uma “cultura de paz”, que Federico Mayor tornou na UNESCO marca fundamental de um conceito moderno e civilizado de património cultural.

Em suma, o património cultural não é um conceito fechado ou estático, é uma realidade viva. Ter memória é respeitarmo-nos, é estudar criticamente a História e conhecer as raízes. Cuidar do que recebemos é dar atenção, é não deixar ao abandono, é conhecer, estudar, investigar, proteger e conservar. Como compreenderemos uma civilização sem o estudo e o diálogo entre a tradição e o progresso, sem o entendimento das suas raízes culturais e religiosas? Só o cuidado do património cultural permite assumirmos uma cidadania civilizada.

Guilherme d’Oliveira Martins assina este texto na qualidade de autor do ensaio “Património cultural – Realidade viva”, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

22 janeiro 2020

Malassadas e mascarados



Artigo de opinião por Gil Rosa.

À medida que o mês de fevereiro se aproxima, aproxima-se também o cheiro das malassadas.
Vem aí o carnaval.
Com os novos tempos as malassadas começam a ser confeccionadas quase logo após o período de festas do Natal e do final do ano.
Antes não era assim. Mandava a tradição que esta iguaria só se confeccionasse quase no dia do entrudo.
Quando era criança adorava estes momentos lá em casa. Adorava assistir ao momento em que minha mãe batia aquela massa. Eu e os meus irmãos gostávamos sobretudo de ajudar a partir os ovos. Quase que nos atropelávamos junto à banheira onde a minha mãe mexia a massa. Não deixava de ser curioso quando o ovo caía na farinha e a gema se desfazia com aquela cor amarelada em grande destaque.
As malassadas da minha mãe tal como na zona eram simples. Farinha, água, fermento, ovos caseiros e raspa de limão, eram estes os ingredientes. Os sonhos e outras coisas afins muito em voga nos dias de hoje nessa altura não existiam.
O que existia, isso sim, era a mestria de transformar aquela massa numas malassadas de sabor incomparável.
Recordo-me dela estar a amassar e a brincar connosco cantarolando: “trupe trupe, malassadas com açucre”, e nós fazíamos coro.
Depois vinha o tempo de levedar e logo a seguir a fritura. E nós voltávamos para junto ao lar ou do fogão para ir acompanhando o processo. Claro que estávamos ansiosos para começar a comer as primeiras malassadas bem quentes que iam saindo da panela.
Para mim era mesmo sem mel ou açúcar. Uma verdadeira delícia.
Lá em casa era assim, na casa de uma tia de mais idade era um pouco diferente, com um ritual mais antigo.
O processo de amassar era igual, mas quando chegava à hora de fritar aí as coisas mudavam.
Na casa da minha tia a comida era toda feita no lar, a lenha, numa cozinha muito antiga.
No dia das malassadas havia quase que um ritual completamente diferente.
A minha tia improvisava um lar no meio da cozinha, cujo chão era de pedra calçada. Era aí que colocava uma pequena panela de ferro das antigas com três pés. Deitava a banha e depois começava a fritar as malassadas. Isto era feito como é bom de perceber ao nível do chão. E lá estávamos nós, ali sentados, à volta da fogueira a assistir à operação. Antes de começar a fritar, minha tia ainda nos pedia para irmos à rua buscar duas caninhas de bambu. Ela afiava as canas às quais lhe chama de “gravetos” e era com este “talher” improvisado que ia mexendo as malassadas e espetando-as para ver se estavam no ponto.
Esta operação fazia-se aí a meia tarde. Mal começava a anoitecer, começavam a surgir os mascarados.
Gente das redondezas, com disfarces algo rudimentares e que logo batiam à porta. De cara tapada e de voz alterada para não serem reconhecidos vinham pedir malassadas. Alguns eram quase fáceis de os identificar, mas outros só mesmo no dia seguinte depois dos próprios se revelarem é que eram reconhecidos.
Nessa altura o carnaval era mesmo um dia especial.

Fonte: JM-Madeira

27 novembro 2019

A caminho do Natal



Artigo de opinião por Gil Rosa.

A forma de celebrar o Natal foi-se alterando com o tempo.

Na minha terra de origem (Santana) ainda assim existem alguns usos e costumes que se mantêm, mas muitos foram vencidos pelo tempo.

É certo que o mês de Dezembro ainda é o mês da “festa” e muito do dia-a-dia é realizado em função do Natal.

No início do mês em muitas casas começa a azáfama, para preparar a “lapinha”, as broas a morte do porco e os ensaios para as romagens que vão sair na noite de Natal.

Na minha infância e adolescência eram tempos de magia pura. Contávamos os dias para chegar ao dia da “festa”.

Uma das primeiras actividades tinha a ver com a “função do porco”.

A matança do porco era um fim-de-semana de festa.
Lá em casa na semana anterior, sobretudo a minha mãe começava a preparar tudo para esse momento.
Recordo-me de ter de ajudar a lavar os terreiros, preparar os salgueiros, as púcaras para a banha e outras tarefas.

Havia também um dia para amassar o pão e cozer o inhame.

Este tubérculo, tal como muita gente ainda hoje faz, levava 24 horas no lar sempre com lume brando e lenha controlada.

O inhame era lavado e cozido com casca dentro de uma grande panela de ferro. Era coberto com um pano de saca. Ficava apenas uma pequena abertura para ir acrescentando água e controlando o sabor com mais ou menos sal.

A matança do porco era por assim dizer o assinalar do arranque das festividades.

Logo depois vinha o tempo de outras limpezas, das broas dos bolos e dos bolos de mel. Era tudo feito lá em casa e no forno a lenha. Amassar não era comigo nem com os meus irmãos, mas fazer as bolinhas que depois iriam se transformar em broas, isso já era uma tarefa para a qual éramos chamados. Provar ainda quentes também era nossa especialidade.

Mais próximo da “festa” havia que preparar a “lapinha”.
Usávamos papel pintado e muito material natural recolhido na zona: o musgo, as cabrinhas o azevinho o alegra-campo, etc.
No presépio acrescentávamos as “cearinhas” previamente preparadas também com trigo lá de casa.
A par do que se preparava em casa, havia a parte religiosa associada. Era o tempo das missas do parto embora sem o fulgor e algum folclore associado nos dias de hoje.

Recordo-me dos preparativos para as romagens representativas de vários sítios que na Noite de Natal entoavam cânticos e levavam várias oferendas em direcção ao altar.

Com alguns dias de antecedência, era preciso criar uma letra, uma música e voluntários de cada sítio que ensaiavam diversas vezes para apresentar uma cantoria devidamente afinada. Na altura gozava-se que se não batesse certo, se alguém desafinasse “dava arroz”.

Fonte: JM-Madeira

04 setembro 2019

A descasca e a desfolha

Artigo de opinião por Gil Rosa.

A vida no campo é tramada.
Tramada pela dureza das tarefas e por vezes enfadonha.
Hoje vou descrever duas das actividades que recordo - agora com agrado - dos tempos de infância: a desfolha do milho e a operação de descascar feijão seco.
Começo por esse produto que é marca de Santana.
O milho quando está em maçaroca é bom para comer de várias maneiras: cozido ou assado.
Quem não aprecia uma bela maçaroca de Santana, cozida e barrada com manteiga, ou então, assada na brasa, salpicada com sal grosso e barrada com manteiga, ou até mesmo, numa sopa com carne de porco salgada, feijão, couve e massa grossa.
Depois quando seca, é preciso apanhá-lo, desfolhá-lo, secá-lo, “esbangar“ e voltar a secar antes de o moer.
Tudo começa na fazenda.
Apanhava-mos as maçarocas que eram colocadas em sacas de lona ou cestos de vindima e transportado para um quarto lá da casa.
Eram colocadas de forma amontoada. Depois, normalmente ao final do dia, os vizinhos, familiares e amigos juntavam-se para a desfolha.
A malta sentava-se à volta numa espécie de roda… uns tiravam a folha outros juntavam as maçarocas descascadas e amarravam-nas em “pinhas”.
No dia seguinte este monte de “pinhas” tinha de ser colocado ao sol. E tudo servia. As cumeeiras da casa, árvores e havia até quem construísse uma estrutura denominada de “gastalho”.
O milho ficava aí um certo tempo. Posteriormente vinha a operação de separar os grãos. Nesse tempo já havia uma pequena máquina, mas muita da operação era feita à mão, maçaroca a maçaroca.
O “esbangar” o milho - como lhe chamavam -consistia em separar o grão do carrilho. Em abono da verdade não era tarefa fácil retirar os grãos de forma manual, para além de ser um trabalho demorado era também um bocado difícil e, quando era feito durante períodos longos, provocava bolhas nas mãos. Era duro e cansativo.
Os montes de grão, tinham de voltar novamente ao sol. Todos os espaços eram aproveitados. Recordo-me da minha mãe usar cobertas das camas e mais tarde grandes pedaços de plástico que eram estendidos no terraço, nos terreiros e até na estrada. Quando era na estrada e por vezes quando vinha algum carro, lá tinha de ir alguém a correr afastar o milho para a viatura passar.
Este processo era repetido várias vezes até ficar no ponto. Pelo meio ainda era peneirado ao vento.
Já bem seco era guardado dentro de caixas de madeira de grande porte para ser levado ao moinho ao longo do ano.
Com o feijão o processo era muito parecido.
Também quando ficava seco, tinha de ser descascado, para utilizar na comida ou para ficar para semente para ser plantado novamente.
Apesar de todo o esforço, recordo que a desfolha ou a descasca eram feitas em ambiente de boa disposição, onde não faltavam as anedotas, histórias e até havia quem cantarolasse.
Para alegrar mais o ambiente lá de vez em quando circulava um copo de vinho, vindo diretamente da pipa. Durante a desfolha do milho havia sempre quem encontrasse uma maçaroca de milho vermelho. Chamavam-lhe milho rei. Era uma festa.

Fonte: JM-Madeira

14 agosto 2019

Gastronómica do Caniço está de volta


Estamos a meros dias de iniciar mais uma edição da Festa Gastronómica do Caniço e azáfama já se começa a sentir nas ruas…

Um certame que de ano para ano se torna mais exigente de modo a responder aos anseios da população, sem esquecer o importante papel que assume na economia e no turismo local, esta é uma festa que arroga um papel de destaque na dinâmica social da nossa freguesia, na promoção da restauração, das iguarias locais, e onde se alicerçam várias áreas como a economia, a cultura, o desenvolvimento económico, a agricultura e o envolvimento e participação ativa da comunidade.

O Caniço, tal como todas as outras localidades, possui um significado de existência que o torna singular, definidor de uma identidade de pertença pelas práticas exercidas no quotidiano da comunidade. Assim, quando falamos de “festas culturais”, surgem saberes peculiares transversais a várias gerações e práticas que se refletem na comida, no artesanato, nas celebrações… Abordar a questão das festas, nomeadamente a “Festa Gastronómica do Caniço” é enfatizar parte da herança cultural imaterial da freguesia e da sua singularidade, numa prática que consolida a sua referência à sua comunidade, e onde a “festa” assume um conjunto etnográfico da história e da manifestação cultural do seu povo. Está presente na música, no turismo, nas práticas que estruturam a realidade social da localidade e da forma particular em que se celebram e se registam os seus costumes. É observado não só o fazer artístico, mas também as relações sociais que perpassam pela realização dessas manifestações e que traduzem a linguagem, a expressão do pensar, do fazer e do sentir característico de um povo.

Neste sentido, a tradição revela-se também no sabor de uma gastronomia diretamente relacionada com as qualidades únicas dos produtos que a localidade tem para oferecer, e que no caso do Caniço, vão para além da Cebola ou do Tabaibo.

O Caniço assume-se assim como como espaço rico em manifestações culturais e de lazer, que qualifica e diversifica a oferta turística e recreativa.

No alinhamento entre cultura e alimentação, as “festas gastronómicas” assumem-se como um elemento integrador da cultura das localidades. São manifestações legítimas de uma região e evidenciam costumes e tradições relativos à alimentação, quer pela utilização de ingredientes específicos, quer pelos métodos culinários utilizados e ainda pelas representações sociais ou simbólicas. A comida também nos identifica e está presente, particularizando, definindo e identificando locais e pessoas pelas suas preferências e gostos traduzidos no modo de fazer, desde a preparação até o servir.

Neste sentido, destacamos a realização de vários showcookings que serão realizados in loco, permitindo à população a aquisição de um know-how de receitas, técnicas e estratégias enriquecedoras. Esta é uma celebração dos produtos e da comida da freguesia, e é a representação e o reforço do orgulho, das tradições e das especialidades que a nossa comunidade deseja partilhar, não só com a população local, mas também com os “de fora”, promovendo o turismo, a música, os produtos hortícolas e culinários locais.

São também importantes os aspetos sociológicos associados à festa em questão, uma vez que se promove um sentido e significado de “importância” na comunidade e se reforçam laços sociais entre os membros da mesma pela aproximação das pessoas e pelo sentimento de espírito comunitário e de identidade que se estabelece.

O Caniço assume-se assim como como espaço rico em manifestações culturais e de lazer, que qualifica e diversifica a oferta turística e recreativa. Que valoriza os fatores endógenos da freguesia como a agricultura e os produtos locais. Que utiliza as suas festas como telas de demonstração de aspetos culturais da freguesia, envolvendo grupos, entidades, comerciantes, visitantes, autarquias, etc., dando ainda destaque à herança cultural musical e gastronómica.

Por todos estes motivos e mais alguns, fica aqui o convite a todos vós! Venham visitar-nos! Venham fazer parte desta festa que é nossa, que é de todos!

07 agosto 2019

Opinião: Ir à Venda

Era uma das tarefas que a minha tia me incumbia quase todos os dias.
Ir à venda nos meus tempos de infância era quase como ir ao supermercado nos dias de hoje.
Nessa altura não havia nada disso.
A venda ou a mercearia era o único local onde se podia comprar as pequenas coisas para o dia-a-dia.
Produtos diversos mas de escassa escolha. Longe da quantidade e diversidade que há hoje e quase tudo linha branca.
O pão, o sal, o café, as especiarias, o arroz, o azeite o vinagre ou a banha e até o petróleo. Sim, o petróleo que era usado nos candeeiros para quem não tinha eletricidade em casa como era o caso da minha tia. Por vezes, ia lá comprar um litro de combustível para iluminar a casa.
Na venda ou mercearia comprava-se quase tudo pesado na hora. Havia poucos produtos embalados. Recordo-me por exemplo, que a banha era retirada de uma lata enorme e a marmelada de um tabuleiro grande com a ajuda de espátulas e eram pesadas em papel vegetal, por sua vez embrulhado nesse papel e novamente embrulhado em papel pardo e amarrado com um fio de barbante.
Também as especiarias eram pesadas em papel vegetal, o tamanho do papel era adequado ao peso e embrulhado muito devagarinho. O merceeiro tirava o lápis da orelha e lá escrevia no embrulho o nome da especiaria para saber o que se levava lá dentro.
O sal, o grão, o açúcar, estavam em sacas espalhadas pelos cantos da mercearia. Em alguns casos até serviam de assento de tal forma que quando alguém chegava e precisava desse produto, era preciso mandar alguém se levantar para abrir a saca e retirar a quantidade pretendida.
O sabão azul era vendido à barra ou cortado na medida que se pretendia, pesado e depois embrulhado em papel de jornal.
Na maior parte dos casos tudo ia para o role. O merceeiro era quase que uma espécie de banco que fiava à espera que o cliente não falhasse no final do mês.
Recordo-me da minha tia me pedir para ir à venda comprar pão. Dava-me o dinheiro contado. Quase conta redonda para um pão branco e um de rolão. Eram poucos escudos. Quando sobravam uns centavos, por vezes tinha autorização para comprar rebuçados ou então amendoim. Normalmente preferia amendoim.
O amendoim era embrulhado em papel pardo, em forma de cone e dobrado na ponta. Uma guloseima que fazia render ao máximo. Por vezes, até comia as cascas. Talvez por ser menos acessível nesse tempo o amendoim parecia-me mais saboroso do que aquele que hoje em dia abunda em qualquer bar onde há Poncha.
As mercearias eram divididas em duas partes: uma para a venda de produtos para casa e outra para venda de bebidas ao balcão.
Na parte das bebidas normalmente lá só estavam os homens. Eram quase que como pequenos centros de convívio. Espaços onde se encontravam naturalmente para um “quarto de litro”, mas também para pôr a conversa em dia.
Aqui as mulheres e muito menos as crianças não tinham lugar.
Nas minhas idas à venda recordo-me de assistir algumas vezes às mulheres irem ali chamar os maridos para casa. Umas vezes sóbrios, outras nem por isso.
Com andar dos tempos este tipo de comércio foi desaparecendo a tal ponto que praticamente quase já nem existem mercearias. Ficam as recordações e as vivências de quem teve o privilégio de um dia “ir à venda.”

Fonte: JM-Madeira

19 junho 2019

Bolo do caco


O bolo do caco, muito comum no Porto Santo e na Madeira, difere do pão, principalmente, pela natureza da cozedura e a forma redonda e achatada. Era cozido sobre um caco ou uma pedra de tufo de lapilli (cantaria mole vermelha) ou traquito (cantaria branco-suja do Porto Santo) e, nos nossos dias, sobre chapa ou numa frigideira. O pão vai ao forno. Há também quem aponte diferenças na massa (mais elástica no bolo do caco) e na levedura (menos lêveda do que o pão).

Já foram notadas semelhanças com o pão dos hebreus, referido, por exemplo, no Antigo Testamento: «pão cozido debaixo da cinza» (1 Rs 19:6). Em muitos lugares, coze-se pão sobre uma pedra aquecida. É um processo ancestral que se mantém na actualidade, em diferentes países.

O bolo do caco era o pão dos mais pobres, daqueles que não tinham forno ou fornalha e que, de uma maneira mais ou menos improvisada, coziam a massa sobre um caco ou pedra, aquecidos com lume vivo ou sobre brasas.

Acerca da naturalidade do bolo do caco, ou seja, se é originário do Porto Santo ou da Madeira, por agora e com certeza, nada se sabe. A diferença entre um e outro, quanto ao paladar, poderá ter a ver com as características da água ou a forma de levedar a massa, nas duas ilhas. De acordo com o testemunho de uma porto-santense à jornalista Alexandra Prado Coelho, «o segredo está na forma de tratar a massa, que se deve deixar levedar três vezes – e não apenas duas como fazem na ilha da Madeira» (Público, 28-05-2016).

A receita é muito simples: farinha de trigo, água, fermento e sal. Há quem acrescente batata-doce, previamente cozida e amassada, mas originalmente não entrava na massa. A utilização de um fermento natural garante-lhe o sabor original.

O bolo do caco associou-se à espetada e, nas últimas décadas, é iguaria reputada nos restaurantes e padarias. Nas festas e arraiais, tem presença obrigatória, barrado com manteiga de alho com salsa. Agora fazem-se pregos e hambúrgueres no bolo do caco. E há também bolo do caco com chouriço. As versões gourmet não convencem, porém, os bons apreciadores e conhecedores.

O bolo do caco vulgarizou-se, assumiu a categoria de tradicional e associou-se a outras especialidades. Deixou de ser produto exclusivamente artesanal, tornando-se industrializado.

No entanto, muitas vezes é de má qualidade, só disfarçada por estar quente e barrado com manteiga. É ver, em locais concorridos, a massa a levedar rapidamente, com fermento em excesso, porque os clientes não podem esperar. Por outro lado, a introdução de farinha de batata-doce, até da China, não o beneficia.

Desde há alguns anos, fala-se na certificação do bolo do caco, a fim de ser garantida a autenticidade e qualidade.

Com efeito, ao aumento considerável da procura não tem correspondido a produção alargada de um bolo do caco genuíno. Há, pois, necessidade de criar mecanismos de intervenção, a fim de ser garantida a qualidade de um produto tradicional. Igualmente, impõe-se a fiscalização em festas e arraiais sobre o bolo do caco e a dita manteiga de alho.

Sendo o bolo do caco tão comum na Madeira, o Mercado Quinhentista, realizado no início deste mês em Machico, não poderia deixar de lhe dedicar uma barraca. Ora, neste Mercado, procura-se uma recriação de ambientes do século XVI. Todavia, a barraca do bolo do caco constituía uma aberração. Havia uma batedeira eléctrica, para amassar, e o bolo era cozido sobre uma chapa aquecida com chama de gás.

Situações destas não deveriam acontecer num Mercado Quinhentista. O sucesso deste evento confere responsabilidades acrescidas à comissão organizadora, que, de futuro, não poderá deixar de se empenhar na eliminação de alguns anacronismos e desvios, aliás recorrentes nas últimas edições.

A recriação da amassadura artesanal do bolo do caco e da cozedura em pedra aquecida com lume de lenha, naquele Mercado, constituiria, sem dúvida, um atractivo bem mais próximo do tempo que se pretende recriar. Por outro lado, possibilitaria a divulgação das técnicas ancestrais do fabrico de um alimento tradicional, contribuindo para a valorização do nosso Património Cultural.


26 maio 2019

Elas estão a chegar…


Artigo de opinião por Verónica Faria. 

Elas estão quase, quase aí a chegar. Um fruto pequeno, doce, suculento e vermelho. Mas o que será? Pois é, falo das cerejas, que estão já em processo de maturação. Eu já provei este ano e tu!?!

13 de maio, um dia especial, em que íamos a pé (com a família ou colegas da escola) à Capelinha de Fátima, no Cabo Girão, para a celebração deste dia. Entre conversas e gargalhadas lá íamos nós caminhando pela Levada do Norte ou pelo sítio da Furneira. Ao longo do percurso passávamos junto de terrenos com cerejeiras, onde as primeiras cerejas, encarnadas, brilhavam, à espera de serem colhidas e saboreadas. E claro, não resistíamos e começávamos a comer algumas. Este era o mote certo para começar a época da cereja.

Confesso que adorava esta altura do ano, em que nós crianças íamos, de terreno em terreno, colher cerejas, só para saborear. Na verdade, a maioria das cerejas ainda estavam a meio da maturação, mas a vontade de provar era superior. A adrenalina de ir apanhar as cerejas, sem que os “donos” vissem aumentava, ainda mais, essa vontade. Enquanto uns se deliciavam a comer, outros ficavam a vigiar se os donos pareciam. E depois trocávamos. Giro, giro era quando diziam “Fujam vem aí o dono!”, era a euforia total. Eram dias felizes e de muita euforia.

A época mais comum para a apanha das cerejas é mesmo em junho, altura em que a freguesia dá lugar aos tons encarnados. Uma época de muito, muito trabalho para as famílias. Não havia mãos a medir para apanhar as cerejas, um fruto tão delicado, quanto saboroso.

Atualmente, devido a doenças que afetaram os terrenos e as cerejeiras, a produção desceu de forma abrupta. Nada se compara à produção de há 20 ou 30 anos atrás.

Recordo-me de ser criança, com cerca de 6 anos, e de ir para a apanha das cerejas, com os meus avós, pais, tios, irmãs e primos, para os terrenos do meu avô, proprietário de muitos terrenos de cerejeiras. Para os mais pequenos, como eu, era maravilhoso, porque passávamos o dia a brincar no meio os “poios”. O dia começava bem cedo e a folia ia até ao final do dia. Já para os mais velhos, aqueles que apanhavam mesmo “à séria” as cerejas, o dia era intenso e cansativo e chegar ao final do dia e ainda ter de “acartar” os cestos carregados de cerejas era muito desgastante. Os terrenos ficavam, muitas vezes, longe das habitações e das estradas. Os acessos íngremes eram difíceis de “escalar”, ainda mais carregados.

Esta época era altura de muito trabalho, é um facto; mas que permitia amealhar dinheiro para o futuro.

A maior parte da colheita era escoada para o Funchal, para serem vendidas nas barracas das ruas ou no mercado dos Lavradores.

Sendo o povo do jardim da serra muito criativo, as iguarias produzidas com este fruto foram crescendo ao longo dos tempos. Desde gelados, compotas, doces, licores, tartes, bolos com um sabor suave e único da nossa cereja.

Atualmente, devido a doenças que afetaram os terrenos e as cerejeiras, a produção desceu de forma abrupta. Nada se compara à produção de há 20 ou 30 anos atrás.

É verdade que são poucas as quantidades produzidas de cerejas atualmente, mas as que temos são boas! Há uma vasta variedade de cerejas, desde a miúda à grada, prontas a serem degustadas, muito em breve! Desafio o leitor a fazer uma visita a esta bela freguesia, certamente vai ficar encantado. Quer apostar? Venha daí.

12 março 2019

Santana e a cana-de-açúcar



Artigo de opinião por Ana Luísa Freitas.


Numa altura em que os sonhos e malassadas aparecem muito à mesa, há quem não dispense o mel de cana que completa bem o sabor daquela iguaria que é já uma tradição enraizada.

Este mel que pode ser biológico ou não, é extraído da cana doce, cana sacarina ou cana-de- açúcar (Saccharum officinarum ) cultivada em diferentes concelhos da região.

A cultura da cana sacarina remonta o século XV e foi durante muito tempo – e, antes do vinho- a produção com maior representatividade no setor agrícola da Madeira. Esta produção foi muito importante na economia, cultura regional e marcou a ‘Era do Ouro Branco’. As primeiras plantações realizadas foram no Funchal e só mais tarde propagaram-se pela costa sul e algumas zonas da costa norte da Madeira. Em Santana, foram muitos os terrenos ocupados por cana doce, uma planta com folhas enormes, que necessita de água e quanto mais sol apanha mais desenvolve podendo atingir uma altura considerável. Ainda hoje, na Achada do Gramacho – perto da Quinta do Furão, Laurindo Teles é um empresário agrícola que investe em plantações desta espécie de gramínea que depois provavelmente segue para o Engenho do Norte (Porto da Cruz). A cana doce, nos engenhos é transformada em açúcar, aguardente e álcool. Quando moída escorre o açúcar no estado líquido, e, este caldo se for fermentado transforma-se em álcool.

É um concelho, que ainda sobrevive da agricultura, e por isso também se sente o peso da emigração e a procura de melhores condições de vida.

Na primeira metade do séc. XX, existiram engenhos de moer cana, na Ribeira de S. Jorge bem como na ribeira dos Moinhos (Faial), onde – hoje – apenas são visíveis ruínas.

Atualmente, na Madeira as canas sacarinas destinam-se principalmente à produção de aguardente e mel de cana. O mel obtido é matéria prima na confeção de bolos e broas de mel, especialidades típicas do natal madeirense.

O Governo Regional reconhece a importância económica desta planta de clima tropical e tem apoiado este tipo de produção que em 2016 atingiu um valor aproximado de 11 toneladas, valor muito acima das 3 toneladas registado no ano 2000. Em onze mil agricultores recenseados, novecentos dedicam-se a esta cultura.

A população de Santana é muito ativa e incansável a laborar e amanhar as terras, sem desistir de cultivar uma grande diversidade de espécies – vimes, cana-de-açúcar, batatas, trigo, couves, milho, frutos…- mantendo assim aquele planalto como se fosse uma manta com diferentes tonalidades de verde entre outras cores, protegendo os solos da erosão e subsistindo em parte com os produtos da sua área de exploração agrícola.


11 março 2019

Os sabores da aldeia, histórias de afetos e “aquele abraço”


Artigo de Opinião por Mara de Sousa Freitas.


Procuramos, infinitamente, o sabor íntimo de cada coisa, de cada momento, de cada acontecimento. Buscamos o encontro perfeito na viagem pelo mundo, em aproximadamente 81 anos, para a sociedade atual, e neste «admirável mundo novo».

Gozamos de mais tempo, mais recursos económicos, e técnicos, mais conhecimento, mais e melhor saúde. O nosso planeta transformou-se numa aldeia global, onde tudo parece ser possível e estar acessível, para todos. As juras de vida eterna, de eterna juventude, de felicidade permanente, de melhoramento interminável das capacidades humanas. Tudo, como que por um golpe de magia, surge como uma oportunidade perfeita. A sociedade modificou-se, as nossas gentes ganharam poder, e autonomia, e a vida transformou-se numa hipotética resposta à vida boa, numa luta incessante por uma liberdade, ainda por interpretar.

Por outro lado, os sabores internos da nossa “aldeia” transformaram-se em lendas, aquelas narrativas maravilhosas que marcam e amplificam a história, e na sua alusão poética nos levam pela mão – de regresso a casa -, ainda que com a consciência de uma distância, por vezes irreparável, e a sensação de desalento para o caminho necessário. Aquele doce sabor que recorda o amargo do desacerto. Aquela sensação de aconchego que nos mostra o quanto desenraizados estamos. A multidão que reenvia a solidão. O ruído que suplica o silêncio da nossa aldeia. O sucesso que confessa, tantas vezes, o fracasso humano. Estamos cada vez mais velhos, mais sozinhos e com menos amor.

Mas a nossa sociedade progrediu, as nossas gentes aparecem, permanentemente, com um sorriso de felicidade. O sucesso é o denominador comum de todas as vidas. Distribuímos novas formas de afeto a cada instante: “banquetes de palavras”, beijos, abraços, amor em forma de corações (vermelhos, amarelos, azuis, …). Nunca estivemos tão «ligados» e, simultaneamente, tão desconectados. Nunca tivemos tantas ligações e nos encontrámos tão vazios.

As taxas de depressão e suicídio continuam a aumentar. O isolamento e a solidão ocupam páginas e páginas dos nossos jornais. Não conhecemos o vizinho do lado. Olhamos a alegria e o sofrimento do outro, sem ver. Ouvimos – com pesar -, as dificuldades do mundo sem escutar aqueles que estão ao nosso lado. A tolerância não inclui o respeito da aceitação, ou pelo tempo e ritmos individuais, ela reveste-se de um suportar pela necessidade de não poder dispensar e, sempre que prescindível, revela-se intolerância, intitulada de desadequação social. O “Bom dia!” e “Obrigado!” tornaram-se palavras de etiqueta.

Naquela tarde, a avó fazia malassadas, bolo do caco e assava batata-doce; a mãe tinha preparado as rosquilhas com a mesma massa, uma para cada filho, e mais algumas para quem chegasse – na aldeia era [é] assim, havia [há] sempre a mais para o vizinho.

Precisamos de revisitar as fontes de sabor da nossa aldeia. Este sabor íntimo das raízes de cada um de nós, que não é matéria da exterioridade, ele é -“como em todas as experiências que requerem um arte de ser, uma coisa em que nos tornamos[1]” -, uma forma de agir, uma forma de relação com o outro, com os outros e com o mundo. A afetividade transforma as sociedades e semeia a solidariedade, construindo pontes e diálogos plurais e intergeracionais assentes no respeito e na responsabilidade, pelas gerações atuais e vindouras.

Os vertiginosos sinais dos tempos, o conhecimento – e o poder por este conferido -, apenas encontram um sentido, na medida em que podem ser usados para influenciar positivamente a vida de todos e de cada um. Por isso, o verdadeiro salto civilizacional acontecerá na exata medida de uma sociedade, onde a justiça, a compaixão, a empatia e o amor possam ser os alicerces para a vida boa e para a liberdade, enquanto oportunidade de realizar o máximo dos valores da nossa vida.

Naquela tarde, a avó fazia malassadas, bolo do caco e assava batata-doce; a mãe tinha preparado as rosquilhas com a mesma massa, uma para cada filho, e mais algumas para quem chegasse – na aldeia era [é] assim, havia [há] sempre a mais para o vizinho. No Carnaval, a nossa aldeia sabe a malassadas regadas com mel de cana, bolo do caco, batata-doce assada, rosquilhas e abraços.

«Aquele abraço» que envolve quando – com as máscaras e a brincar ao Carnaval -, passeiam de casa em casa. Aquele abraço que deixa de ser o nosso abraço (os nossos braços), o abraço de quem nos abraça (os braços do outro), para ser uma nova realidade que acolhe na reciprocidade, no reconhecimento, na afetividade, no amor, «o nosso abraço». O abraço que faz brotar, naquele instante, um novo e admirável mundo, uma entidade singular que metamorfoseia dois mundos e os faz cientes da verdade última: «é tão bom que tu existas» – e nesse abraço -, o mundo pula e avança.

– Ao que sabe a nossa aldeia, avó? – Perguntou a menina.

– A nossa aldeia sabe a cada bocadinho de ti, cada bocadinho da nossa família, cada cheiro da nossa casa, cada gesto dos nossos amigos, cada cheiro, cada som, cada cor…. Esse é o sabor da nossa aldeia…

– Avó, mas posso saborear sempre que eu precisar?

– Claro! Respondeu a avó. O sabor da nossa aldeia será, sempre, a oportunidade de voltares a casa e poderás voltar a casa sempre, onde e quando quiseres.

– Avó! Então poderei estar sempre contigo, com a nossa família e amigos – balbuciou a menina, cheia de júbilo.

– Filha, nunca esqueças o que é importante. Onde quer que estejas e o que quer que faças, ao longo de toda a tua vida, escuta, com atenção, o que permanece ao final do dia, depois de toda a tua agitação, de todos os teus projetos, de todos os teus sonhos e sucessos. Ouve e dá atenção a tudo aquilo que aguarda, serenamente, pelo silêncio para revelar-se. Dá tempo e espaço àquilo que nunca pensaste ou reparaste. Depois, com toda a serenidade com que esperamos este delicioso bolo do caco – estas malassadas que tanto adoras -, repara naquilo que perdura dentro de ti, quando «o silêncio se avizinha [2]». Assim, nunca estarás só!

– A menina e a avó abraçaram-se…

[1] José Tolentino Mendonça, em «A mística do instante, o tempo e a promessa».

[2] Virgílio Ferreira

06 fevereiro 2019

Língua Portuguesa: Fui ao gourmet e tramei-me

Gourmet? Nunca mais lá volto. Sabem que mais? Porque se quero comer aperitivos, como bolinhos de bacalhau e tremoços, que são muito mais saudáveis e baratos. Fui ao gourmet e tramei-me, por Francisco Gouveia.

Sou um tipo moderno. E chique. Muito chique. Por isso não podia deixar de entrar num restaurante gourmet da moda. Vesti um Armani que comprei num saldo dos chineses, calcei umas sapatilhas com uma vírgula estampada que regateei ao ciganito da feira e esvaziei, pelo pescoço abaixo, meio frasco de Chanel dos marroquinos.
Fui ao gourmet e tramei-me, por Francisco GouveiaLíngua Portuguesa: Fui ao gourmet e tramei-me

E foi assim, cheio de cagança, como mandam as regras do pelintra luso, que fui jantar ao tal restaurante, gerido por um “chef” reputado com categoria internacional e olímpica.
Tramei-me! Antes tivesse ido ao tasco da esquina aviar uma bifana! Confesso que já levei muita tanga, mas como esta, nunca! Passei fome, fui gozado e fui roubado!
Fui ao gourmet e tramei-me, por Francisco GouveiaLíngua Portuguesa: Fui ao gourmet e tramei-me

Sempre achei que cozinhar era uma ato de descontração, de partilha, de alegria, de afeto. E eu devia desconfiar, porque aqueles concursos gastronómicos das TVs transformaram uma atividade social sadia, numa agressão stressante, provocadora de lágrimas e depressões.
Já para não falar das parvoíces dos mestres cozinheiros da moda, cujos pratos estapafúrdios e minimalistas se apelidam agora de “criatividade culinária”.
Fui ao gourmet e tramei-me, por Francisco GouveiaLíngua Portuguesa: Fui ao gourmet e tramei-me

Colocaram-me um prato à frente que é mais difícil de decifrar que as palavras cruzadas do JN ao domingo.
Um prato que exibe 5 cm2 de um pobre robalo que pereceu inutilmente só para lhe extraírem um pedacito do cachaço, meia batata engalanada com um pé de salsa, e 2 ervilhas a nadarem numa colher de chá de um azeitado molho de escabeche, bem disfarçado com um nome afrancesado que nem vem nos dicionários.
Para remate, três riscos de uma substância pastosa, estilo Miró, para preencher os restantes 90% do prato vazio.
Fui ao gourmet e tramei-me, por Francisco Gouveia

E o bruto do português, habituado à sua travessa de cozido e ao panelão de feijoada, olha para aquilo com uma cara de parvo capaz de partir todos os espelhos lá de casa.
Esboça-se um sorriso amarelo, engole-se em seco, diz-se que está tudo ótimo ao empregado de mesa que mais parece uma melga à nossa volta, e enfiam-se dois Xanaxs quando nos metem a conta à frente. E, a muito custo, cala-se o berro de duas peixeiradas à nortenha que nos vai na alma.
Fui ao gourmet e tramei-me, por Francisco Gouveia

Nunca mais lá volto. E sabem que mais?
Porque se quero comer aperitivos, como bolinhos de bacalhau e tremoços, que são muito mais saudáveis e baratos.
Porque para ver pintura abstrata, vou a uma exposição.
Fui ao gourmet e tramei-me, por Francisco GouveiaLíngua Portuguesa: Fui ao gourmet e tramei-me

Porque detesto jantar uma comida onde toda a gente meteu as mãos.
Porque para ser roubado bastava ir à Autoridade Tributária, vulgo Finanças.
E, acima de tudo, porque desconfio de um cozinheiro que vive e trabalha com a ambição obsessiva de ser medalhado por uma companhia de pneus.
Autor: Francisco Gouveia

28 dezembro 2018

Initium Operum Fraternitatis MMXIX


Crónica anual da exclusiva responsabilidade de Gregório Freitas de antevisão do ano novo.


2019 será um ano de máxima importância para Confraria Enogastronómica da Madeira, a começar pelo desafio de afirmação e consolidação do seu novo objeto de acção e sua nova denominação. Para tal feito, sei que têm no seu planeamento a realização de novos eventos no espaço nacional e até no espaço europeu, dos quais estou certo que, em muito, irão contribuir para a defesa, divulgação e promoção da herança cultural gastronómica e báquica da Região Autónoma da Madeira e por consequente da Região da Macaronésia. Um bem haja pela ousadia!

Cá, para a Região, eu considero, tal como fiz em anteriores direções desta irmandade, a premência da criação de uma "Direção Regional da Gastronomia e do Vinhos", pois denoto uma certa confusão no meio empresarial no que toca ao conhecimento e preservação da herança cultural enogastronómica da Madeira. Vê-se que há poncha de todos os feitios (mais doce, com gelo, com sabor a erva, etc, etc...) desvirtuando desta forma a sua essência e por outro lado sendo deixado no esquecimento marcas identitárias da nossa Região, como a poncha de mel-de-cana. Será que alguém se lembra desta bebida? Será que seria uma mais valia reabilitá-la, introduzindo na oferta, preservando esta memória enogastronómica da Região e, em simultâneo, potenciando o consumo de dois produtos de excelência providos do cultivo da cana sacarina? É este e outro trabalhos similares que poderia ser desenvolvido pela dita Direção.

No espaço nacional congratulo-me com o regresso da Confraria Gastronómica do Alentejo ao movimento confrádico nacional e, em particular, a nova direção da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas, empossada este mês. Faço, desde já, votos de bom trabalho quer para a Confraria, quer para a Federação! No entanto, conhecendo a maneira de estar e de ser da presidente da Federação, senhora Olga Cavaleiro, não há razão para conceder um estado de graça a esta Direção pois estou convencido que será mais do mesmo que foi nestes últimos 6 anos, caracterizados por pura inércia e alguns desfiles na passerelle. Sendo assim, desde já, provoco a Direção da Confraria Enogastronómica da Madeira para que estude a apresentação em 2021 de uma candidatura às eleições dos Órgãos Sociais da FPCG

De regresso à Região, é com agrado que constato que há uma crescente ou mesmo uma plena recuperação durante a "Festa" do acto cultural da "Função da Morte do Porco" e, em simultâneo, congratulo-me que a Confraria Enogastronómica da Madeira tenha contribuído de forma tão ativa para a preservação deste vivência cultural do povo da Região Autónoma da Madeira.

Ainda para 2019, faço votos que o Governo Regional da Madeira manifeste o interesse na apresentação de uma candidatura a "Região Europeia de Gastronomia". Estou certo que a Região Autónoma da Madeira e a Confraria Enogastronómica da Madeira estão preparadas para a realização deste desafio.

Este artigo de opinião é da inteira responsabilidade de Gregório J.S.Freitas.

Estreito de Câmara de Lobos, 1 de Janeiro de 2019. 

07 dezembro 2018

Bastardo: O Legítimo e o Ilegítimo (parte 2) - Pela Enófila

Artigo de opinião por Filipa Aveiro.

Na relação existente entre os solos e o clima, há uma casta de uva que amadurece mais cedo, gerada fora desta relação magistral e concebida de forma perfeita pelo universo. Nos vinhos de mesa, este rebento ilegítimo, geralmente rejeitado pela maioria dos viticultores, acabou por ser bem-sucedido em monocasta. Desde sempre, era apenas utilizada para complementar outros vinhos, atribuindo-lhes aromas, tempero e propriedade.

Encontramos esta casta enigmática em algumas regiões, para além da Madeira. De bago pequeno e película que se desfaz facilmente, necessita de um trabalho delicado e criterioso do viticultor e do enólogo. Alguns destes vinhos têm vindo a surpreender os consumidores e a ganhar mercado de forma gradual. Temos os exemplos do Bastardo da Península de Setúbal da Casa Horácio Simões, no Douro, da Niepoort ou Conceito, e em Trás-os-Montes, na Quinta do Arcossó, tal como as apostas recentes de enólogos bem-sucedidos e que começam a estudar melhor esta casta, casos como o de Paulo Nunes, na Costa e Boal, ou de Luís Seabra, na Quinta Valle de Passos.

Na Madeira, podemos encontrar o vinho de mesa Bastardo, de 2014, da Quinta de Arcossó. Uma quinta com tradições vitícolas da ocupação pré-romana, que engrandece a simbiose entre o homem e a natureza que o circunda, abdicando do trabalho mecânico, em prol do trabalho artesanal e com muita pouca intervenção. Um casal amigo, chegou a visitá-la. Ficou rendido à excelente aula de geográfica que receberam pelo Sr. Amílcar, mentor do projeto, que lhes explanou os cuidados que tem na relação da posição da vinha com os solos, inseridas nas montanhas que as rodeiam.

Ao debruçar a garrafa de Bastardo sobre o copo, irá deparar-se com uma cor de vinho tinto, um pouco mais esbatida que o habitual, com aromas agradáveis a sublinhar amoras, cerejas e com uma leve nuance a madeira. Na boca é suave, fresco e elegante, com taninos densos, deixando um final longo. Recomendo que o sirva fresco, após uma ida ao frigorífico por uma hora e, que o acompanhe com carnes brancas ou com gastronomia sem muita especiaria.

O rótulo do Bastardo, da Quinta do Arcossó, revela-se misterioso, poético e com um qb de atrevimento, entoado pelo vermelho e preto, numa garrafa borgonhesa escura e baça que não revela o seu interior. O nome da quinta está descrito como se de uma sopa de letras se tratasse, onde as palavras são individualizadas apenas por um apontamento cromático, tendo o nome da casta um registo discreto, mas em primeiro plano na leitura geral do rótulo.

Vinho um pouco misterioso... ao prová-lo descobrirá um registo diferente, que o irá surpreender e que o conduzirá a apreciar, de forma mais atenta, os vinhos produzidos com apenas uma casta, para que vá testando os seus sentidos e traçando as suas escolhas individuais.

Boas provas.


Fonte: JM-Madeira

04 dezembro 2018

Munus mortem porcus MM XVIII


Crónica anual da exclusiva responsabilidade de Gregório Freitas.


O ano de 2018 revelou-se muito positivo para a Academia Madeirense das Carnes / Confraria Gastronómica da Madeira que assinalou a passagem para idade adulta com um excelente Grande Capítulo, o décimo oitavo e com o aprofundar da sua missão, reestruturando-a de forma a incluir a cultura báquica madeirense, que a bem da verdade, era já uma prática na ação da confraria que agora vê-se refletida nos seus estatutos e na sua nova denominação – C. E. M. – Confraria Enogastronómica da Madeira.

A par desta transformação, há que destacar a aprovação com louvor das contas do ano transato e o estabelecimento de novas relações além-fronteiras até a data inexistentes, como é exemplo da presença pela primeira vez em eventos de irmandades na Finlândia, na Alemanha, na Holanda e a confirmação da deslocação à Córsega no início de 2019.

Estas dinâmicas revelam o bom desempenho da actual direção e dos seus confrades: em defender, valorizar e divulgar a cultura gastronómica e agora também báquica regional com o fim de afirmar a Região Autónoma da Madeira como uma referência mundial também na enogastronomia, levando o seu nome por esse mundo além, conforme preconizado desde a fundação desta irmandade.

É com regozijo que vejo assunção do compromisso por parte do Governo Regional da Madeira e do Município de Câmara de Lobos para criação do Museu do Vinho e da Vinha na Vila do Estreito de Câmara de Lobos, um facto importante para a nossa Confraria, pois desde há muito esta reivindicava esse espaço museológico na respectiva Vila embora com um âmbito mais abrangente ou seja dedicado ao vinho e a gastronomia atlântica da Região Autónoma da Madeira.

O ano de 2018 está no seu términus e a actividade da F. P. C. G. - Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas, nada trouxe de novo como era previsível, foi mais um "Ano Olga Cavaleiro”. A F. P. C. G. perdeu a oportunidade de se afirmar perante o governo da República como um importante parceiro na defesa da Herança Cultural Gastronómica Atlântica e Mediterrânica que identifica a maneira de estar e de ser do nosso povo.

O prémio que a Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas recebeu da Associação dos Empresários da Restauração e Hotelaria vale o que vale, para mim vale NADA! Para todos nós, o importante seria, se a FPCG tivesse peso ou capacidade reconhecida, que ainda não tem, para entregar a respectiva associação empresarial um prémio se estes promovessem ou sensibilizassem a defesa da herança cultural gastronómica de Portugal nos seus restaurantes ou hotéis, isso sim, seria de VALOR!

O movimento confradico internacional embora com muita dificuldade continua a manifestar a sua presença em vários países, em termos gastronómicos, a CEUCO – Conselho Europeu de Confrarias segue manietada pela ação da sua direção, em particular pela triste figurinha do seu presidente, carlos martins cosme. Em termos báquicos, a F. I. C. B. - Federação Internacional das Confrarias Báquicas esta em crescendo, realizando no próximo ano o primeiro Concurso Mundial de Provas de Vinhos dos seus membros, na Finlândia, entre 6 e 9 de Junho. Um desafio que a C. E. M. – Confraria Enogastronómica da Madeira pretende marcar presença com um ou mais dos nossos vinhos tranquilos.

Acabo este pequeno escrito da minha total responsabilidade, manifestando total apoio a direção da Confraria Enogastronómica da Madeira pelo novo passo dado com a aprovação dos novos estatutos e da sua nova denominação já defendida por mim na anterior Assembleia Geral que se realizou em 30 de Setembro de 2017.

Gregório J. Silva de Freitas.

23 novembro 2018

Marque na agenda! (parte 2) - Pela Enófila


Artigo de Opinião por Filipa Aveiro.


As feiras de vinhos permitem-nos apurar os nossos sentidos de degustação.

Nesses eventos, temos a possibilidade de provar vinhos que, geralmente, não temos acesso e, ainda, de comparar aromas e sabores, experienciando as diferentes reações que nos causam ao nariz e à boca, descobrindo os que nos agradam mais, distinguindo-os por estilos, regiões, castas e anos.

Para além das provas vinhos, as feiras proporcionam-nos bons momentos entre amigos. Vinhos e amigos são ingredientes fantásticos para bons instantes de descontração, boa conversa e divertimento.

Por acreditar nesta receita, cheguei a marcar viagens com um grupo de amigos para irmos à Essência do Vinho e ao Simplesmente Vinho. São eventos com filosofias distintas, embora com o mesmo fim… dar a provar vinhos e divulgar distribuidores. A Essênciadecorre no Palácio da Bolsa, um lugar magnífico e cheio de glamour, num ambiente, que na minha opinião, está cada vez mais comercial. Já o Simplesmente, como o próprio nome indica, é um evento mais simples e com mais alma, seguindo o conceito de “vinhos diferentes e com uma dose saudável de loucura e poesia”1, onde os produtores e consumidores se reúnem em torno de barricas, proporcionando uma interação mais pessoal com cada produtor. Num ambiente engradecido pela presença de alguns restaurantes, de concertos e de obras de arte expostas nas paredes de pedra rústica, de um edifício do século XV, sendo ele o antigo Convento de Monique, com vista para o rio Douro… simplesmente divinal.

Na Madeira, as garrafeiras e distribuidoras de vinhos começaram a abrir as suas portas para dar a conhecer, ao público em geral, os seus produtos. O último que estive presente foi na Copo, num sábado à tarde, com a presença de alguns produtores regionais e nacionais que fazem jus ao seu reportório.

Nem sempre os vinhos mais caros são os melhores. A qualificação de um vinho é uma variável que depende do gosto individual de cada um de nós. Um bom vinho é aquele que nos dá a vontade de repetir a experiência, acompanhando-o, talvez, com uma refeição.

Dos que provei nesse dia, realço o ‘Regueiro’ trajadura/alvarinho. Um vinho branco de 2017, da região dos Vinhos Verdes, com aroma frutado ligeiro, muito agradável. Revelou-se ser um vinho equilibrado entre o álcool e a acidez, fresco na boca, com um final persistente e longo, mais seco que a edição anterior, excelente para acompanhar pratos de peixe grelhado ou mariscos, sem se sobrepor a estes sabores vindos do mar. A sua identidade visual é marcada por uma garrafa esguia e elegante, que se destaca nas prateleiras entre outras, guarnecida por um rótulo eclético, que transmite confiança e fidelidade ao consumidor, pela sua simplicidade e pela informação explícita pela patente da marca ‘Regueiro’, numa fonte cursiva um pouco elaborada e, pela designação das castas de fácil leitura, em caixa alta, no tom preto que se destaca do fundo pastel. O preto é uma cor desprovida de sentimento, mas confere nobreza e distinção, enquanto que o pastel é a estandarte da esfera íntima.

Já sabe, se quiser provar este ou outros vinhos e acompanhar as novidades que chegam ao mercado regional, esteja atento aos inúmeros eventos existentes e marque na sua agenda!

Fonte: JM-Madeira

09 novembro 2018

Uma história bem contada - pela Enófila

Artigo de Opinião por Filipa Aveiro.

Confesso que me rendo a uma bela história e, no contexto vínico, existem histórias familiares inspiradoras, que nos fazem acreditar que o trabalho, quando alavancado por paixão, tem um fim grandioso.

Confesso que me rendo a uma bela história e, no contexto vínico, existem histórias familiares inspiradoras, que nos fazem acreditar que o trabalho, quando alavancado por paixão, tem um fim grandioso.

Muitas vezes dou por mim a querer saber a história que está por detrás de um vinho que me agradou de forma singular. Se assentar numa história de vida que, de alguma forma, me ‘toque’, admito que passo a apreciá-lo de forma muito mais atenta, questionando-me sobre os aromas e sabores que estes me despertam, em respeito à ‘alma’ do produto e à narrativa histórica que o antecedeu.

Num mundo cada vez mais globalizado e tecnológico valorizo, cada vez mais, os produtos com uma identidade vincada, marcada pelas vivências individuais e/ou familiares e movidas pela força do acreditar.

Nesta altura do “Pão por Deus”, em que as temperaturas começam a baixar, somos agradavelmente invadidos pelo aroma das castanhas assadas, que estão nas nossas ruas. A nível nacional, as castanhas são tradicionalmente acompanhadas pela jeropiga. Por cá, combinam bem com o Vinho Madeira ‘Rainwater’, denominação atribuída no século XVIII ao Vinho Madeira que era armazenado em pipas de casco que ficavam sujeitas à absorção das águas da chuva e do mar. Enquanto estas ficavam nos calhaus a aguardar o embarque, ou durante as viagens marítimas em que algumas vezes eram atingidas por temporais, ganhavam um estilo mais aguado.

Diversas adegas regionais têm no seu portfólio, e a preço acessível, este estilo de vinho. Falo da Madeira Wine Company, a Justino’s ou a Henriques & Henriques.

O ‘Rainwater’ que escolhi para o meu magusto, dada a sua história, foi o Barbeito ‘Rainwater’ Meio Seco, com 5 anos. Um vinho com aroma a verniz, de notas adocicadas, com um nível de açúcar equilibrado para um meio seco, que nos preenche a boca com suavidade, deixando um aroma longo e fresco a terra e a amêndoas.

Este vinho, produzido pelas castas Tinta Negra e Verdelho, é envelhecido em canteiro em cascos muito antigos, o que lhe atribui um paladar distinto que combina muito bem com as castanhas assadas em carvão. Atualmente, este vinho é produzido sem a inserção de água, sendo esta substituída pela casta Verdelho que, vinificada de forma mais suave, recria este estilo leve de Vinho Madeira, que já é reconhecido em diversos mercados internacionais.

Esta inovação está bem patente no vinho ‘Rainwater’, elaborado por Ricardo Diogo, da terceira geração da Barbeito, filho de Manuela Vasconcelos, uma das primeiras mulheres madeirenses no mundo vínico. Ricardo Diogo, formado em História, para alavancar a empresa familiar (que se encontrava numa situação pouco favorável), aceitou o desafio lançado pelo sócio japonês, assumindo o controlo dos vinhos, sem qualquer formação enológica, mas com muita experiência enraizada por ter sido criado no meio de cascos e garrafões em plena adega. Começou por fazer pequenas experiências e invenções, em paralelo com algumas formações na área e o resultado está à vista de todos, com a colocação no mercado de Vinhos Madeira extraordinários, graças à sua audácia e capacidade de inovação. Hoje, Ricardo Diogo é um dos grandes embaixadores do Vinho Madeira pelo mundo fora.

Os rótulos dos Vinhos Barbeito têm sido renovados ao longo dos anos, mantendo o desenho original do ‘nobre’ madeirense, com um traço moderno e irreverente, dado pela austríaca Cordula Alessandri, uma das mais notáveis designers a nível mundial que, em Portugal, apenas trabalha a imagem da Barbeito e da Niepoort. A figura masculina com a barriga saliente é a imagem de marca da Barbeito, que se apresenta, geralmente, com diversos acessórios e em posições díspares, que rematam para a singularidade de cada vinho. No caso do ‘Rainwater’, a figura humana tem sobre a sua cabeça meia pipa exposta à chuva, facto histórico que originou a sua denominação.

No próximo domingo, 11 de novembro, é dia de São Martinho, no qual tradicionalmente acompanhamos as castanhas com um bom vinho. A minha proposta está lançada, mas muitas outras conjugações podem ser feitas, com sabores típicos que lhe são familiares. Fica a dica!

Fonte: JM-Madeira
Com tecnologia do Blogger.

 

© 2013 Confraria Enogastronómica da Madeira. All rights resevered. Designed by Templateism

Back To Top