08 agosto 2019

A Uva tem uma história com muito sumo e nós contamo-la aqui


Crê-se que no seu estado natural, selvagem, a Uva possa ter mais de dois milhões de anos. Isto antes de ser domada pelo Homem, tornando-se a base de uma das bebidas talhadas para o sucesso mundial, o Vinho. Esse, deixamo-lo, por agora, a descansar nas barricas e damos a vez ao bago, para beber e comer.

Há uma história, carregada de lenda, contada e recontada na fria Islândia. Narra o feito do normando Leiv Eriksson, viajando por volta do ano mil da nossa Era, nos gelados mares do Atlântico setentrional. Leiv rumava para Ocidente. Ao fim de uma longa jornada terá alcançado o continente norte-americano. Aí, nos verdejantes territórios descobertos, um dos membros da sua tripulação terá reconhecido uma videira carregadas de uvas. Inspirado, batizou a nova região como Viland hot Goda, o que traduzindo significa, “o bom país rico em uvas”. Embora a história careça de algum fundamento e provas históricas certo é que a uva, o fruto da videira, desde há muito havia iniciado a sua expansão, pela mão humana, para diferentes latitudes.


Traçar a história da uva, fruto de baga redonda ou alongada que se apresenta em tentadores cachos pendentes, significa acompanhar a epopeia da videira, da sua cultura em vinha, seja para o fabrico de vinho, seja para o consumo à mesa e gastronómico, ou para a produção de passas.

Da uva existem milhares de diferentes castas em todo o Mundo. Para o vinho em específico serão utilizadas perto de mil, pertencendo todas à mesma espécie, Vitis Vinífera, uma das muitas subespécies da família da videira.

NA PRÉ-HISTÓRICA, A ANTEPASSADA DA NOSSA UVA

Estima-se que há mais de dois milhões de anos que existem videiras em estado selvagem (Vitis Silvestris), sendo quase certo que as uvas constariam da dieta do homem do Paleolítico Superior há 60 000 anos apontando-se, inclusivamente, a possibilidade dos nossos antepassados terem observado fermentações espontâneas do fruto e saboreado o produto dai resultante. Investigadores encontraram montículos de grainhas na Síria, no Líbano e na Jordânia remontando à Idade da Pedra.

ESTIMA-SE QUE HÁ MAIS DE DOIS MILHÕES DE ANOS QUE EXISTEM VIDEIRAS EM ESTADO SELVAGEM.

Mais tarde, por alturas do Neolítico e da Idade do Bronze, as uvas parecem ter constituído parte da alimentação de povos que se instalaram na Europa Central e ocidental, nas margens do Mediterrâneo, no Sul do Cáucaso e no Próximo Oriente. As grainhas mais antigas provenientes de videiras cultivadas, encontradas em escavações arqueológicas na Geórgia, datam de sete a cinco mil anos a.C. A domesticação das videiras pode ter começado com o simples abrir de clareiras no mato que as rodeava. Cerca de cinco a quatro mil anos a.C. a vinha ter-se-á expandido em dois sentidos: da Geórgia e da Arménia para a Mesopotâmia, Síria, Palestina e Egipto, por um lado, e para a Anatólia, chegando ao Chipre e Creta, por outro.


Na Mesopotâmia, vamos encontrar entre os Sumérios, a uva com uma função cerimonial sendo frequente a representação da uva na escrita pictográfica.

Na Anatólia, planalto na atual Turquia, os Hititas ornamentavam o Deus da fecundidade com cachos de uvas e na Palestina a vinha era uma cultura de grande tradição e antiguidade, assim como o foi no Egipto faraónico. A civilização que prosperou nas margens do rio Nilo foi um dos berços da viticultura. A vinha era, já na altura, cultivada em parreiras e não pareceria estranho, num olhar atual, o hábito dos egípcios de há mais de quatro mil anos pisarem as uvas ao som de canções, batendo animadamente palmas.

NA SUA EXPANSÃO PARA LESTE, A VIDEIRA ATINGIU A ÍNDIA NA IDADE DO BRONZE, HÁ CERCA DE CINCO MIL ANOS.

Na sua expansão para Leste, a videira atingiu a Índia na Idade do Bronze, há cerca de cinco mil anos e terá chegado, levada por caravanas e campanhas militares, há cerca de dois mil anos, à China, país que conheceu, então, a viticultura. Desta nação a viticultura passou para o Japão há dez mil anos. A uva tomou ali o nome de budo, conhecendo uma grande expansão no século XII.

A UVA NA ANTIGUIDADE CLÁSSICA

Entre os antigos Gregos vamos encontrar a cultura da videira praticada com grande esmero e com selecção de castas. Hesíodo, em “Os Trabalhos e os Dias” faz o elogio das tarefas agrícolas e descreve alguns dos labores da vinha e do vinho, escrevendo que “enquanto o caracol sobe às plantas desde o solo (…) então já não é época de podar as vinhas”.

Já entre os Romanos a cultura da vinha irá conhecer uma enorme expansão, a partir da Península Itálica, chegando a praticamente todos os territórios conquistados. Virgílio, na obra “Geórgias” preocupado com a agricultura, dá conselhos aos camponeses sobre a forma de tratar a vinha. Foram os romanos que iniciaram o estudo dos vinhos, criando as bases para a moderna enologia. Na Gália a cultura da videira generalizou-se no Sul e nas margens do Ródano no século I a.C. até que o édito de Domiciano, em 92 d.C., ordenou o arranque de metade das vinhas cultivadas na região, pois os vinhos concorriam com a produção romana. Contudo, em 280 d.C. o imperador Probo autorizou novamente a cultura da vinha, estendendo-se esta às regiões mais setentrionais do Império.

Ao que parece Gregos e Romanos sabiam secar as uvas, produzindo desta forma passas. Estas são provenientes de variedades muito doces de uvas de mesa selecionadas entre as que têm pouca grainha.


A UVA TAMBÉM VISTA COMO REMÉDIO

Após a queda do Império Romano, em 476 d.C., e com os alvores da Idade Média na Europa, a vinha passou a ser cultivada no ambiente de recolhimento dos mosteiros beneditinos, clunicenses, cistercienses, entre outros, onde a leitura de obras eruditas romanas serviu de tábua de salvação à preservação dos ensinamentos sobre a cultura da vinha. Neste período da história as viagens eram difíceis. Dai a implantação de vinhedos nas margens de grandes rios: Loire, Tejo, Douro, Reno.

O desenvolvimento da viticultura ocorrerá, de novo, a partir do século XII sob o impulso do crescimento dos países do Norte da Europa, enquanto a viticultura mediterrânica só viria a prosperar significativamente a partir do século XIX. No século XIII, entre diversas obras dedicadas à agricultura, duas trarão um contributo importante à cultura da vinha. Alberto Magno, escreveu De Vegetalibus, livro sobre botânica e agricultura detendo-se na cultura da vinha; enquanto Pier Crecenzi, publicava Ruralium Commodorum, um tratado de viticultura.


O sumo de uva, apreciado pelas suas propriedades revigorantes e depurativas deu origem a curas de uvas. Em 1927 foi inaugurado o “uvário de Moissac”; em 1930, a “estação uval” da Gare-Saint-Lazare, em Paris, que fazia jorrar diariamente o sumo de cinco toneladas de uvas. Contudo, o desenvolvimento do sumo de uva em garrafa fez desaparecer este género de estabelecimento.

Atualmente a maior parte da cultura das videiras destina-se à produção industrial de vinho ou de outras bebidas alcoólicas, num valor que ronda os 80 por cento. Cerca de cinco por cento destinam-se à produção de sumos e outros cinco por cento à de passas, essencialmente produzidas a leste da bacia do Mediterrâneo, no Médio Oriente, no Sul de Espanha e Califórnia. Finalmente, dez por cento da uva destina-se ao consumo à mesa, como sobremesa.

Fonte: Lifestyle Sapo.pt

O peixe-espada preto tem festa de comeres marcada em Câmara de Lobos


De 9 a 11 de agosto a baía de Câmara de Lobos, na Madeira, acolhe a Festa do Peixe Espada Preto e, com ela, a homenagem à mesa de uma das espécies mais emblemáticas nos pratos do concelho.


Na Madeira, as capturas de peixe-espada preto representam uma importante fatia da economia da região associada à faina no mar. É para homenagear esta espécie que habita a profundidades consideráveis, até aos 1700 metros, que o município de Câmara de Lobos, dedica três dias de festa.

Em 2019, o certame realiza-se de 9 a 11 de agosto e alia a gastronomia com a diversão, numa festa que conta com demonstrações de cozinha e muita animação musical, para além da inevitável mesa onde se servirá o peixe-espada preto em diferentes confeções culinárias. Para isso, não faltarão as tradicionais barraquinhas de comes e bebes, instaladas na baía de Câmara de Lobos.

No dia 9, pelas 19h00 e com a abertura da festa, decorrerá uma “Homenagem aos Pescador”.

07 agosto 2019

Opinião: Ir à Venda

Era uma das tarefas que a minha tia me incumbia quase todos os dias.
Ir à venda nos meus tempos de infância era quase como ir ao supermercado nos dias de hoje.
Nessa altura não havia nada disso.
A venda ou a mercearia era o único local onde se podia comprar as pequenas coisas para o dia-a-dia.
Produtos diversos mas de escassa escolha. Longe da quantidade e diversidade que há hoje e quase tudo linha branca.
O pão, o sal, o café, as especiarias, o arroz, o azeite o vinagre ou a banha e até o petróleo. Sim, o petróleo que era usado nos candeeiros para quem não tinha eletricidade em casa como era o caso da minha tia. Por vezes, ia lá comprar um litro de combustível para iluminar a casa.
Na venda ou mercearia comprava-se quase tudo pesado na hora. Havia poucos produtos embalados. Recordo-me por exemplo, que a banha era retirada de uma lata enorme e a marmelada de um tabuleiro grande com a ajuda de espátulas e eram pesadas em papel vegetal, por sua vez embrulhado nesse papel e novamente embrulhado em papel pardo e amarrado com um fio de barbante.
Também as especiarias eram pesadas em papel vegetal, o tamanho do papel era adequado ao peso e embrulhado muito devagarinho. O merceeiro tirava o lápis da orelha e lá escrevia no embrulho o nome da especiaria para saber o que se levava lá dentro.
O sal, o grão, o açúcar, estavam em sacas espalhadas pelos cantos da mercearia. Em alguns casos até serviam de assento de tal forma que quando alguém chegava e precisava desse produto, era preciso mandar alguém se levantar para abrir a saca e retirar a quantidade pretendida.
O sabão azul era vendido à barra ou cortado na medida que se pretendia, pesado e depois embrulhado em papel de jornal.
Na maior parte dos casos tudo ia para o role. O merceeiro era quase que uma espécie de banco que fiava à espera que o cliente não falhasse no final do mês.
Recordo-me da minha tia me pedir para ir à venda comprar pão. Dava-me o dinheiro contado. Quase conta redonda para um pão branco e um de rolão. Eram poucos escudos. Quando sobravam uns centavos, por vezes tinha autorização para comprar rebuçados ou então amendoim. Normalmente preferia amendoim.
O amendoim era embrulhado em papel pardo, em forma de cone e dobrado na ponta. Uma guloseima que fazia render ao máximo. Por vezes, até comia as cascas. Talvez por ser menos acessível nesse tempo o amendoim parecia-me mais saboroso do que aquele que hoje em dia abunda em qualquer bar onde há Poncha.
As mercearias eram divididas em duas partes: uma para a venda de produtos para casa e outra para venda de bebidas ao balcão.
Na parte das bebidas normalmente lá só estavam os homens. Eram quase que como pequenos centros de convívio. Espaços onde se encontravam naturalmente para um “quarto de litro”, mas também para pôr a conversa em dia.
Aqui as mulheres e muito menos as crianças não tinham lugar.
Nas minhas idas à venda recordo-me de assistir algumas vezes às mulheres irem ali chamar os maridos para casa. Umas vezes sóbrios, outras nem por isso.
Com andar dos tempos este tipo de comércio foi desaparecendo a tal ponto que praticamente quase já nem existem mercearias. Ficam as recordações e as vivências de quem teve o privilégio de um dia “ir à venda.”

Fonte: JM-Madeira

CEM em França no Capitulo da Confraria "La Dive Bouteille de Gaillac"

A Confraria Enogastronómica da Madeira marcou presença em França, onde se realizou o grande Capitulo da Confraria "La Dive Bouteille de Gaillac".

"Foi na cidade de Gaillac, no Departamento do Tarn, na região da Occitanie, que decorreu a Festa do Vinho de Gaillac, um dos mais pequenos e também mais antigo vinhedo de França, que durante 3 dias de festa, concursos, amostras e provas de vinhos e outros produtos regionais, entre outros concertos e animações, se realizou o grande Capitulo da Confraria "La Dive Bouteille de Gaillac".

Contou com 19 Confrarias, sendo 18 francesas e a Confraria Enogastronómica da Madeira, de relevar a presença e entronização de várias figuras políticas regionais e de nível nacional, sendo eles presidentes de Câmara, deputados e ainda a Miss França 2019, não esquecendo os membros das confrarias convidadas."

A Confraria de l`Ordre de la Dive Bouteille de Gaillac, fundada em 1952, assume-se como herdeira dos ideias e princípios da Compagnie de la "Poudo", fundada pelos Cônsules da cidade de Gaillac no ano de 1529.

Lino de Jesus Dionisio
Estreito de Câmara de Lobos, 7 de Agosto de 2019.

> Na Imprensa:

> Diário de Notícias da Madeira: Confraria Enogastronómica da Madeira representada em França






























06 agosto 2019

Boa maturação, Festa da Vindima de 25 de Agosto a 8 de Setembro


Estamos em Agosto e as uvas amadurecem nas parreiras. Ainda não chegou o momento da colheita mas, se o tempo ajudar, se a chuva não comprometer a maturação, será um bom ano de vinho. 

Já a Festa do Vinho e da Vindima, que é um dos cartazes turísticos do destino Madeira, decorrerá, este ano entre os dias 25 de Agosto e 8 de Setembro. 

A Festa acontece por altura das vindimas, que acontecem em finais de Agosto e inícios de Setembro.

Os festejos do evento que se realiza desde o fim dos anos setenta do século passado iniciam-se no Funchal e incluem a Semana Europeia de Folclore, decorações, exposições e quadros vivos alusivos ao vinho e suas lides e ainda espectáculos diversos de música ligeira e tradicional. 

Fonte: Funchal Notícias

04 agosto 2019

Presença da confraria madeirense na Galiza

A Confraria Enogastronómica da Madeira participou a 4 de Agosto no "LXVII Capítulo del Serenisimo Albariño", que se realizou mo Município de Cambados, Galiza.

Estreito de Câmara de Lobos, 4 de Agosto de 2019. 

Na Imprensa:



> Televisión de Galiza: Telexornal Serán







02 agosto 2019

Espetada original madeirense reúne dezenas no arranque da Festa da Alegria


A recriação da espetada original madeirense, tal como era confeccionada no século XVII, reuniu esta sexta-feira, no Montado da Esperança, em São Roque, dezenas de pessoas no arranque da Festa da Alegria.

“Segundo os historiadores e os arqueólogos foi aqui que nasceu a espetada madeirense. Os pastores subiam à serra para tosquiarem os animais e no final do dia faziam um braseado com carne de cabra nova em espeto de louro” explicou Pedro Gomes, presidente da Junta de Freguesia de São Roque.

Uma tradição que o autarca quer recuperar para enriquecer o património cultural da freguesia. “Estamos a trabalhar para que, no futuro, esta espetada seja um ex-libris do Montado da Esperança e de São Roque”, avançou, sublinhando que esta é também uma forma de divulgar a freguesia e de dinamizar a economia local.

A demonstração gastronómica ficou a cargo de Rocha de Silva, ex-diretor regional das Florestas, que recordou as origens da espetada. “No final do dia de trabalhar a marcar as crias novas, os criadores de gado escolhiam uma rés, desgarrada ou ferida. Como não tinham panelas a solução era cortar aos bocados e assar num braseiro, num espeto de louro”.

As festividades em honra de Nossa Senhora da Alegria, organizada pela Junta de Freguesia de São Roque e pela Casa do Povo local, prolonga-se pelo fim de semana, onde não faltarão as barracas de comes-e-bebes, onde poderão ser encontrados os típicos pratos madeirenses. O programa inclui a atuação de músicos, a realização de atividades lúdico-desportivas, sendo que o ponto alto da Festa da Alegria é a Missa Campal, que acontece no domingo às 11h45, com o padre José Luís Rodrigues.

Recorde-se que o transporte será assegurado durante toda a festa, com carrinhas todo-o-terreno que farão as subidas e descidas entre o Largo do Encontro e o Montado da Esperança.

01 agosto 2019

Presença agendada em Genebra


A Confraria Enogastronómica da Madeira agendou a sua presença na edição de 2019 da "Fête des Vendanges de Russin" e no Capítulo da Academie du Cep, que se realiza no dia 14 de Setembro na pequena localidade de Russin, pertencente à região de Genebra (Suíça).

Estreito de Câmara de Lobos, 1 de Agosto de 2019.

Diana Silva, a madeirense que recusou o não quando decidiu trabalhar "vinhos impossíveis"


No dia em que decidiu fazer os seus vinhos, Diana Silva determinou deixar uma assinatura própria. Chamou-lhes Ilha, aquela onde nasceu, a Madeira, e onde trabalha uma casta, a Tinta Negra, em que poucos acreditavam capaz de construir bons vinhos tranquilos. Diana não encontrou facilidades, mas também nunca desistiu.


“Santos da casa não fazem milagres” não é adágio que Diana Silva, madeirense de gema, tome como certeza na sua vida. Na realidade esta apaixonada pela região onde nasceu, há 34 anos, teima em contrariar lugares comuns, ou acomodados, na hora de ir para a vinha e para a adega. Diana, com formação em marketing e comunicação, é produtora de vinhos e fá-lo com a determinação de quem quer contrariar uma espécie de maldição imposta à casta que monopoliza o pequeno território vinícola madeirense.

Quem à Tinta Negra impôs o anátema de não servir para vinhos tranquilos, vertendo apenas para os fortificados, terá de provar a trilogia de néctares que Diana vinificou de três formas diferentes - tinto, branco e rosé - e a que chamou Ilha. Néctares que a produtora apresentou em 2018, produzidos a partir da colheita de 2017 e que, atualmente, dificilmente encontramos. Já este ano, Diana apresentou novas colheitas destes seus vinhos DOP, e duas novidades - o Ilha Verdelho, e o Ilha E.

Como inspiração, os vinhos elegantes, frescos e subtis que a nossa interlocutora nesta conversa, encontra na sua região vinícola de eleição fora de portas, a francesa Borgonha.

Diana não quer, contudo, replicar uma pequena Borgonha na Madeira. Quer manter a identidade do arquipélago. Um território que olhou - ainda olha - com desconfiança para a mulher, jovem e empreendedora que, no dia em que decidiu que iria ser produtora vinícola, quis fazer diferente. “Se é para me dedicar aos vinhos, então que seja na Madeira. Não vou fazer mais um Alentejano ou Duriense”.

Diana, como se dão os seus primeiros contactos com o mundo dos vinhos?

Estou ligada ao setor há perto de 15 anos. Não fui sempre produtora de vinhos. O meu curso inicial é de Comunicação e Turismo, Direcção Comercial e Enologia, em Lisboa. Nesse contexto, tinha estágios obrigatórios e, acabo por fazê-los em empresas ligadas ao vinho. Já havia, aí, o ´bichinho` dos vinhos. Começaram também as oportunidades de trabalho nessa área. Gostei e decidi fazer uma pós-graduação em Gestão Comercial. Trabalhei, ainda, nos vinhos em restaurantes, como o Manifesto de Luís Baena, assim como com os vinhos dos produtores Rui Roboredo Madeira e Paulo Laureano. Fazer marcas é das coisas mais difíceis que há. Nos vinhos, um mercado muito fragmentado, mais difícil ainda. Acabava por estar sempre fora de casa, com pouco tempo para a família. Logo, pensei, se o caminho é este, então que seja com algo meu. Contei logo no início com o apoio do Ricardo [Ricardo Gusmão], o meu marido, que também está comigo no negócio.


Nesse arranque a Diana ia já com um propósito?


Sim, sou madeirense, do Funchal, queria fazer algo novo. O mercado precisa de coisas diferentes e, atualmente, encontramos aceitação por parte dos consumidores. Queria ajudar a alavancar a economia madeirense e tinha algumas certezas. Se é para me dedicar aos vinhos, então que seja na Madeira. Não vou fazer mais um Alentejano ou Duriense, não desmerecendo, pois são excelentes vinhos. Outra certeza, a de trabalhar a casta Tinta Negra.

É verdade que desde cedo lhe reconheceram um especial talento na prova de vinhos?


[Risos] Sempre fui muito curiosa, comecei a provar vinhos com 18 anos e com especialistas do setor. Na altura foram algumas dessas pessoas que me incentivaram a aprofundar. Tinha sensibilidade para a prova. Provar requer muitas memórias olfativas e de sabores. Eu, felizmente, tenho essa capacidade memorial. Acaba por ser uma mais-valia. Ainda hoje há vinhos que provei há dez anos e que recordo. Vinhos que, para mim, eram clássicos e que agora já não os vejo assim. O que fiz com essa qualidade, a da prova, foi, de facto, explorar. Isso significa provar cada vez mais. Investi muito em provas, não só de vinhos portugueses, mas também de vinhos estrangeiros. Nós fazemos bons vinhos, mas lá fora também se faz bem. É uma aprendizagem mútua.


O MERCADO PRECISA DE COISAS DIFERENTES E, ATUALMENTE, ENCONTRAMOS ACEITAÇÃO POR PARTE DOS CONSUMIDORES. QUERIA ALAVANCAR A ECONOMIA MADEIRENSE E TINHA ALGUMAS CERTEZAS.

Falando dos vinhos fora de Portugal, a Diana tem afeto por uma região em particular.


Sou uma fã incondicional da região da Borgonha. Os meus vinhos de eleição são frescos, elegantes e subtis. Para mim um vinho extraordinário é como uma pessoa que vemos, nos parece interessante e descobrimos, depois, que ainda vai mais longe. A Borgonha é assim e tem uma casta magnífica, a Pinot Noir.

A Diana fala em elegância e subtileza nos vinhos que aprecia. Considera que estas características estão nos vinhos feitos no feminino?


Eu quero acreditar que sim. As mulheres são mais delicadas do que os homens. Apesar disso, há vinhos feitos por homens fabulosos. O Dirk [Dirk Niepoort] faz vinhos altamente elegantes. Mas também é um homem que explorou muito o mundo e soube trazer parte desse mundo para dentro das nossas fronteiras. Ainda a propósito das mulheres no mundo dos vinhos, têm do melhor e do pior. Somos muito hormonais. Se estivermos num dia fantástico, fazemos uma prova perfeita, se estivermos num dia menos bom, podemos ser muito depreciativas. Depois, há que provar duas ou três vezes o mesmo vinho para encontrarmos uma apreciação com objetividade e justa.

Falemos da casta madeirense que tanto adora, a Tinta Negra. Como se dá a sua entrada no mundo dos vinhos e, particularmente, na região?

Era uma casta que queria mesmo trabalhar. Uma vez mais, lá está a Pinot Noir com características organoléticas que encontro na Tinta Negra. Ou seja, capaz de fazer um vinho elegante. Quando fui para o terreno, à procura de parcelas de vinha que respondessem aos meus objetivos, não houve ninguém que me dissesse, em toda a ilha, vai em frente. Foi um pouco remar contra todos e a favor de um sonho e de uma ideia.



Remou contra todos, porque apareceu com um propósito diferente para uma casta usada maioritariamente para vinhos licorosos, certo?


Oitenta e cinco por cento do cultivo de vinha na Ilha da Madeira integra a Tinta Negra. Esta é utilizada para os Vinhos Madeira, com três anos, cinco anos. Todos os vinhos de três anos, sejam secos, meio seco, doce. É conhecida como a casta camaleão que faz vinhos diferentes a altitudes diversas. Todos os viticultores que encontrei estavam preocupados em ter mais quantidade de uvas face a uma maior maturação. E no caso de um vinho de mesa da Madeira, quero ter as uvas melhores, porque não podemos acrescentar álcool vínico a 96%, enquanto que no Madeira podemos. Logo, há uma discrepância de 1,5 graus, pelo menos, entre aquilo a que o viticultor está habituado a vindimar para o Madeira, com 9 graus de maturação e, para nós, tendo de estar a 10,5 graus de maturação.

TODOS OS VITICULTORES QUE ENCONTREI ESTAVAM PREOCUPADOS EM TER MAIS QUANTIDADE DE UVAS FACE A UMA MAIOR MATURAÇÃO.

Na prática, a Diana teve de ter um papel de persuação para conseguir encontrar quem lhe desse a mão…


Tive de reunir viticultores que acreditassem na nossa causa. Foi um trabalho de persistência. Atenção, já havia viticultores a fazerem o que eu procurava, como oSamuel Freitas, um produtor jovem, a quem presentemente ainda compro uvas e que está apostado em crescer connosco. O senhor Manuel Faria já apanhava uvas no ponto em que estão boas. De resto, um dos desafios é o de estarmos a contactar pessoas com uma certa idade, habituadas a trabalhar de uma certa forma e que olham para mim como uma miúda.

Do ano passado para cá, temos a ajuda da Justino´s, o maior produtor e comprador de uvas da Madeira. A Justino´s compra, todos os anos, quase metade da quota de produção vitícola da ilha. Fizemos uma parceria, para termos contacto com os viticultores da Justino´s, sem prejudicar a empresa. As nossas quantidades são pequenas, em 2018, por exemplo, foram 17 toneladas. A par dos produtores individuais que referi, a Justino´s deu-me a mão.

A Diana também não tem adega própria. Como faz?

Levo as minhas uvas para uma adega em São Vicente que pertence ao IVBAM [Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira]. As barricas e todos os produtos enológicos são opções nossas e compras nossas. Por seu turno, há quem tenha enologia própria, há quem tenha a da adega. No meu caso optei pelas duas; eu e o João Pedro [enólogo]. Também contamos com os serviços de equipamento e de engarrafamento.

Fonte: Lifestyle Sapo.pt


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